Estas mulheres são uns seres mesmo complicados. Já ninguém me pode dizer que a culpa é sempre dos homens. Que coitados, muitas vezes sem razão são culpados por todos os nossos desgostos amorosos, expectativas elevadas e desconfianças desnecessárias.
O homem atrás de mim, é o meu avô. Narciso de nome mas impossível ser Narciso de coração. Está casado com a minha avó desde sempre, diz ele. Quando a viu, apaixonou-se imediatamente. Não só porque a beleza dela era inigualável mas porque assim tinha que ser, segundo ele. Foi assim que eu cresci, convivendo com estes dois e presenciando o efeito do tempo neles. Foram envelhecendo, as dores começaram a aparecer e as queixas foram ficando como se de um "bom dia" se tratasse. Nunca tinha percebido muito este amor. Porque para mim, amor era beijinhos todos os dias a todas as horas, abraços apertados e constantes declarações de amor. Oh, mas como eu estava enganada. Amor não é isto e quem tem este tipo de amor, aviso já que de verdadeiro não tem nada.
Poucas vezes ouvi o meu avô elogiar a minha avó ou dizer-lhe o quanto gostava dela. Nos jantares de família era preciso uma enorme insistência para eles darem um beijinho. Mas houve um acontecimento que cativou a minha atenção e fez-me refletir sobre a verdadeira essência da paixão. O porque de eles durarem tanto tempo juntos e ainda conseguirem sorrir um para o outro e chatearem-se fazendo depois as pazes. A minha avó, sendo mulher, reclama por tudo e por nada (coisa típica das avós e mulheres) e consegue fazer isto desde que ele chega, até ele sair. Muitas vezes sei que o vô, faz-se de parvo e surdo e finge que não percebe nada de nada do que ela diz mas depois há outras vezes em que lhe responde à letra e ela não tem resposta. Ela disse-lhe: "nunca vês nada, tens tudo à frente e nunca vês nada. estás mesmo velho!" Quando ele lhe responde: "mulher, não vejo nada porque passo o meu tempo todo a olhar para ti". Aquele momento levou-me a um estado profundo de melancolia. Sabia que amores destes são raros de se encontrar. Homens destes, puros e Santos poucos foram feitos. Assim amo o meu avô, sendo da maneira que ele é e porque passou uma vida toda do lado de uma mulher da qual eu sou, quase fotocópia.
Amar alguém nunca será fácil. Saímos quase sempre magoados e com o coração apertado mas ter crescido e presenciando algo tão verdadeiro faz-me acreditar que até eu, impossível de aturar, mimada, imatura, impaciente, insegura, possessiva e alguém que reclama de tudo e mais alguma coisa pode encontrar um homem santo, que esteja disposto a ser o meu braço direito, o meu melhor amigo,que olhe para mim e saiba que fomos feitos um para o outro. Também aquele que se faz de parvo e surdo quando começo a parvejar. A minha outra metade.
E todos os dias, quando olho para o meu João, o meu coração diz-me que ele é, esse homem.
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